
Conciliar estudos, trabalho e a criação dos filhos nunca foi fácil — e, para milhares de estudantes com filhos no Brasil, essa conta simplesmente não fecha.
Um levantamento inédito conduzido por um grupo de trabalho ligado ao Ministério da Educação (MEC), que ouviu 7.648 pessoas em todo o país, revela a dimensão do problema: 54,4% dos estudantes de graduação com filhos já precisaram trancar a matrícula ou abandonar definitivamente o curso para dar conta dos cuidados familiares. Na pós-graduação, o índice de evasão no ensino superior por esse motivo chega a 36,4%.
A pesquisa também traça o perfil desse público: 86,5% dos respondentes são mães, a idade média é de 33 anos, e a maioria estuda em universidades públicas federais, no período noturno, para conseguir conciliar aulas com trabalho e cuidado dos filhos.
O desafio de ser mãe (ou pai) universitário no Brasil
Para quem não tem filhos, estudar já exige organização, transporte, alimentação e tempo. Quando há uma criança pequena envolvida, entram novas responsabilidades: alimentação do bebê, consultas médicas, doenças inesperadas, acompanhamento escolar e segurança em tempo integral.
Um exemplo do dia a dia
Ana, 23 anos (exemplo fictício, mas representativo do perfil identificado pela pesquisa do MEC), cursa enfermagem numa universidade pública. Acorda às 5h para preparar o filho de dois anos, deixá-lo na creche, pegar dois ônibus até a faculdade e, à tarde, trabalhar como atendente para complementar a renda da família.
Quando a criança fica doente e a creche não pode recebê-la, Ana não consegue ir às aulas. Depois de várias faltas, perde disciplinas — e começa a pensar em trancar o curso.
Renda baixa: o principal fator de evasão estudantil
A vulnerabilidade financeira aparece como um dos dados mais alarmantes do levantamento do MEC: quase 25% das mães universitárias sustentam a família com, no máximo, um salário-mínimo, 14,5% vivem com até meio salário e 16,1% declararam não ter renda alguma.
Ter filhos aumenta os gastos da família — fralda, alimentação, roupa, remédio, transporte —, o que empurra muitos estudantes de baixa renda para jornadas de trabalho mais longas. E quanto maior a carga de trabalho, menor o tempo disponível para os estudos.
Em muitos casos, sobra uma escolha difícil:
- continuar estudando sem conseguir pagar as contas; ou
- abandonar a faculdade para garantir o sustento da família.
Segurança alimentar também pesa
O relatório do MEC aponta que mais da metade das estudantes entrevistadas afirmou que os filhos não têm direito a comer nos restaurantes universitários (RUs) — um dado que evidencia como a assistência estudantil ainda não foi desenhada pensando em quem tem filhos.
Falta de rede de apoio e de vaga em creche
Nem todo mundo tem avós, irmãos ou outros familiares disponíveis para cuidar das crianças durante as aulas. Muitas mães solo enfrentam esse desafio sozinhas — e, segundo o levantamento do MEC, apenas 5,9% dos graduandos conseguem pagar por babás ou cuidadores, enquanto só 7,5% têm acesso a algum serviço público de apoio.
Mesmo quando existe creche pública, nem sempre há vaga suficiente ou horário compatível com curso noturno ou jornada de trabalho. Isso cria uma pergunta simples de fazer, mas difícil de responder: quem fica com a criança enquanto o responsável estuda?
Por que as mulheres são as mais afetadas pela evasão
No Brasil, ainda é comum que a maior parte do cuidado com os filhos recaia sobre as mães universitárias — que, além da maternidade, seguem responsáveis pelos afazeres domésticos, pelas refeições e pela organização da casa. Essa chamada “dupla” ou até “tripla jornada” reduz drasticamente o tempo disponível para estudar.
O resultado é cansaço físico e mental, que dificulta o aprendizado e aumenta o risco de trancamento de matrícula e evasão.
O ciclo intergeracional da evasão escolar
Interromper um curso pode parecer solução temporária, mas muita gente nunca consegue voltar. Sem diploma ou qualificação, as oportunidades de emprego ficam mais limitadas e a renda permanece baixa — dificultando ainda mais o acesso a melhores condições de vida para toda a família.
Estudos sobre fatores associados à evasão no ensino superior mostram que filhos de famílias com menor escolaridade enfrentam mais dificuldades educacionais e econômicas, embora isso não seja uma regra. Por isso, apoiar estudantes com filhos é também um investimento no futuro das crianças.
Políticas de permanência estudantil: o que já está mudando
Nos últimos anos, algumas universidades brasileiras passaram a adotar medidas de assistência estudantil para reduzir a evasão, como:
- bolsa permanência;
- auxílio-creche;
- flexibilização de prazos acadêmicos;
- licença-maternidade para estudantes;
- adaptação para atividades remotas em situações específicas;
- espaços destinados à amamentação.
O que acontece em outros países
Em alguns países, universidades chegam a oferecer creche dentro do próprio campus. O modelo ainda é raro no Brasil, mas prova que existem alternativas viáveis para a permanência estudantil.
Perguntas frequentes sobre estudantes com filhos e evasão escolar
Quantos estudantes com filhos abandonam a faculdade no Brasil?
Segundo o levantamento do MEC (2026), 54,4% dos estudantes de graduação com filhos já trancaram ou abandonaram o curso para cuidar deles. Na pós-graduação, o índice é de 36,4%.
Quem é mais afetado pela evasão por maternidade ou paternidade?
A pesquisa mostra que 86,5% dos estudantes-pais entrevistados são mães, reforçando que a responsabilidade pelo cuidado dos filhos ainda recai principalmente sobre as mulheres no ensino superior.
Quais políticas ajudam a reduzir a evasão de estudantes com filhos?
Bolsa permanência, auxílio-creche, flexibilização de prazos, licença-maternidade estudantil e espaços de amamentação estão entre as medidas já adotadas por algumas instituições brasileiras.
A educação não deveria depender da condição familiar
Investimento em creche, transporte, bolsa estudantil e assistência social pode diminuir significativamente a evasão escolar. Também é importante que empregadores entendam a realidade de quem trabalha, estuda e tem filhos, oferecendo horários mais flexíveis sempre que possível.
Nenhuma medida isolada resolve tudo. Mas pequenas mudanças podem ser a diferença entre abandonar a faculdade e conquistar um diploma — e, segundo os dados do MEC, ampliar o acesso ao ensino superior não é suficiente sem políticas de permanência que considerem a realidade de mães e pais estudantes.
Fontes: Levantamento do Ministério da Educação (MEC), 2026 — divulgado pela Agência Brasil (EBC) e pela CNN Brasil.
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