Cataratas do Iguaçu: turistas jogam 383 kg de moedas e batem recorde histórico

Funcionários da Urbia Cataratas recolhendo moedas do Rio Iguaçu
Funcionários da Urbia Cataratas recolhendo moedas do Rio Iguaçu
Foto:Site oficial do Parque Nacional do Iguaçu turismo

Uma operação de limpeza realizada em abril de 2026 no Parque Nacional do Iguaçu retirou cerca de 383 quilos de moedas do leito do Rio Iguaçu — o maior volume já registrado na história do parque. O número recorde revela um problema crescente de impacto ambiental causado pelo turismo: um dos maiores patrimônios naturais do planeta está sendo tratado como um simples poço dos desejos.


Por que as Cataratas do Iguaçu estão sendo usadas como “poço dos desejos”?

O hábito que virou problema ambiental

Jogar moedas em fontes e corpos d’água é uma prática cultural difundida ao redor do mundo, associada à crença popular de que o gesto realiza desejos. Nas Cataratas do Iguaçu, esse costume ganhou proporções alarmantes: visitantes de dezenas de países arremessam moedas nas águas do Rio Iguaçu todos os anos, mesmo com a prática expressamente proibida pelo parque.

“As pessoas jogam a moeda, fazem um desejo e torcem para que ele se realize”, relatou um visitante ao ser questionado sobre o comportamento.O problema é que a intenção não elimina o dano — e os números mostram que ele está crescendo.

Os dados que preocupam gestores e ambientalistas

O parque realiza operações periódicas de limpeza ambiental do Rio Iguaçu, e o histórico de coletas evidencia uma tendência preocupante:

AnoVolume recolhidoObservações
2016~40 kg~R$ 1.000 em bom estado doados a asilo
2019~329 kgRecorde histórico na época
2023~158,8 kgMoedas de quase 40 países
2026~383 kgNovo recorde histórico

A operação de limpeza de 2026: como foi realizada

Força-tarefa no leito do rio

No dia 15 de abril de 2026, funcionários da Urbia Cataratas — empresa responsável pela operação turística do Parque Nacional do Iguaçu — trabalharam ao lado de voluntários para recolher o material acumulado no fundo do rio.

A ação foi viabilizada pelo nível baixo e estável do Rio Iguaçu neste período, que permitiu acesso seguro ao leito. Além das moedas, a equipe também recolheu óculos, garrafas e bonés perdidos por visitantes nas passarelas e arredores das quedas.

Por que a maioria das moedas não tem valor recuperável?

Após anos submerso, o material apresenta corrosão avançada, o que inviabiliza a estimativa do valor total recolhido. Apenas as peças em melhor estado de conservação serão aproveitadas — destinadas a projetos de educação ambiental e sustentabilidade dentro do próprio parque.¹


Cataratas do Iguaçu: patrimônio natural que precisa de proteção

Um dos espetáculos mais grandiosos da natureza

As Cataratas do Iguaçu estão entre os fenômenos naturais mais imponentes do planeta. São 275 quedas d’água, com altura de cerca de 82 metros e extensão aproximada de 2,7 quilômetros — formando um dos sistemas de cascatas mais extensos e volumosos do mundo.

Em 1986, o Parque Nacional do Iguaçu foi reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco— o lado argentino já havia recebido o título dois anos antes, em 1984. Reconhecidas também como uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo, as Cataratas recebem cerca de 2 milhões de visitantes por ano.

A tríplice fronteira e a diversidade de moedas

A localização geográfica das Cataratas — na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai — explica a variedade de moedas encontradas no rio. Além do real brasileiro, as mais frequentes são o peso argentino e o guarani paraguaio. Na operação de 2023, foram identificadas moedas de quase 40 países diferentes.

Algumas das peças recolhidas neste ano têm mais de 20 anos de circulação, enterradas entre pedras, algas e cavidades no fundo do leito — o que torna o trabalho de coleta especialmente difícil.


Contaminação por metais pesados: o impacto ambiental invisível

Como as moedas poluem o ecossistema aquático

O problema vai muito além da estética. O acúmulo de moedas metálicas no leito do Rio Iguaçu representa uma ameaça real à qualidade da água e à biodiversidade local. À medida que se oxidam, moedas compostas por níquel e cobre liberam substâncias tóxicas que se dissolvem na água.

“Isso gera uma contaminação química da água, que acaba afetando toda a cadeia alimentar”, alerta o biólogo do parque, Fogaça.

Fauna aquática em risco

Há ainda um segundo vetor de dano: peixes e aves que habitam o Rio Iguaçu podem confundir as moedas com alimento devido ao brilho refletido na água, ingerindo o material e sofrendo intoxicação. O impacto sobre espécies da fauna local pode ser significativo e de difícil reversão.


O que o ICMBio e o parque estão fazendo — e o que pedem aos visitantes

Gestão e conscientização ambiental

O Parque Nacional do Iguaçu é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para André Machado Franzini, gerente de sustentabilidade do parque, a mudança de comportamento dos visitantes é urgente:

“É preciso conscientizar o turista para que ele não jogue moedas nem outros objetos no rio.”

O apelo: transforme o desejo em doação

O parque propõe uma alternativa concreta ao hábito de jogar moedas:

“Quando você vem aqui, tira fotos, leva memórias. Leva também a moeda que ia jogar fora — doa para uma instituição de caridade, para alguém que precisa. Assim a gente consegue proteger essa maravilha do mundo.”


Turismo sustentável nas Cataratas: responsabilidade de todos

As Cataratas do Iguaçu são um patrimônio coletivo — do Brasil, da humanidade, das gerações futuras. O recorde de 383 quilos de moedas em 2026 não é apenas uma estatística: é um termômetro da relação entre o turismo de massa e a preservação ambiental.

Cada visita é também uma escolha. E talvez o melhor desejo que se possa fazer diante das Cataratas seja este: que elas sigam intactas, vivas e livres — para quem ainda vai chegar.


Referências

Operação de limpeza do Parque Nacional do Iguaçu / Urbia Cataratas

UNESCO — Lista do Patrimônio Mundial: Parque Nacional do Iguaçu (Brasil, inscrito em 1986) | Parque Nacional Iguazú (Argentina, inscrito em 1984). Disponível em: whc.unesco.org

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By Sophia

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