
As tarifas que os EUA querem impor ao Brasil chegaram a 25% — e já têm data, justificativa formal e lista de setores na mira. O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) concluiu em 1º de junho de 2026 a investigação aberta pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e propôs a sobretaxa sobre produtos brasileiros, que ainda depende de decisão final do presidente Donald Trump — e o Departamento de Estado anunciou a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), com validade a partir de 5 de junho de 2026.
A combinação de pressão comercial e classificação de segurança nacional criou um cenário com impactos que vão da balança comercial ao debate político nas redes sociais — e que ainda está longe de uma resolução.
O que é a Seção 301 e por que ela foi usada contra o Brasil
A Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974 é um mecanismo legal que permite ao governo americano investigar e retaliar países cujas práticas comerciais sejam consideradas injustas, irracionais ou que prejudiquem empresas norte-americanas.
Segundo o USTR, a investigação contra o Brasil foi aberta em 15 de julho de 2025 por determinação direta do presidente Donald Trump. Após quase um ano de apuração, o relatório concluiu que determinados atos e políticas do governo brasileiro são “irrazoáveis” e “oneram ou restringem o comércio dos EUA” — linguagem técnica que abre caminho para a aplicação de tarifas retaliatórias.
As seis frentes de acusação do relatório do USTR
O documento do USTR elenca seis áreas de conflito principais:
- Comércio digital e censura — Tribunais brasileiros teriam emitido ordens secretas obrigando plataformas americanas como X, Meta e Google a remover conteúdo político e suspender perfis, sob ameaça de multas diárias severas. A plataforma Rumble está suspensa no Brasil desde fevereiro de 2025.
- Sistema de pagamentos — o Pix — O USTR questiona que o Banco Central atua simultaneamente como regulador e proprietário do Pix, o que favoreceria a plataforma nacional em detrimento de concorrentes norte-americanos.
- Tarifas preferenciais injustas — Acordos comerciais do Brasil com países como México e Índia colocariam empresas americanas em desvantagem competitiva.
- Desmatamento ilegal — Apesar de reconhecer a legislação ambiental brasileira, o USTR afirma que historicamente houve falhas na aplicação efetiva das regras.
- Propriedade intelectual e pirataria — O relatório cita, entre outros pontos, a Rua 25 de Março, em São Paulo, como centro de comércio de produtos falsificados.
- Fragilidades anticorrupção — O documento referencia o enfraquecimento da Lava Jato e o que considera retrocesso no combate à corrupção.
Fonte: USTR — Relatório da Seção 301, divulgado em 1º de junho de 2026. Acesso via Diário do Centro do Mundo e Gazeta do Povo.
Tarifa de 25%: quais produtos brasileiros seriam afetados
A proposta de sobretaxa de 25% ainda depende de decisão final do presidente Trump. O USTR abriu consulta pública, e o relatório definitivo deve ser publicado até 15 de julho de 2026.
O documento inclui uma extensa lista de exceções — produtos que ficariam de fora da sobretaxa para evitar impacto nos próprios consumidores americanos:
- Aeronaves civis, motores e peças aeronáuticas
- Fertilizantes e farmacêuticos
- Minerais estratégicos e terras raras
- Diversos produtos agropecuários: carne bovina, café, frutas tropicais (manga, mamão, abacaxi, laranja, banana)
Entre os setores mais vulneráveis estão aço, alumínio, celulose, etanol, produtos industrializados e segmentos do agronegócio não contemplados nas isenções.
Vale lembrar que, em 2025, o governo Trump já havia imposto tarifas de 50% sobre a maior parte dos bens brasileiros — medida que foi posteriormente suspensa por decisão da Suprema Corte dos EUA, que apontou irregularidades no tarifaço global aplicado naquele ano. Ainda assim, as exportações brasileiras bateram recorde de US$ 348,7 bilhões em 2025, segundo dados do governo brasileiro, impulsionadas pela diversificação para China e outros mercados.
PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas: o que muda
Enquanto a guerra comercial avança, a frente de segurança também escalou.
Em 28 de maio de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou que os EUA designariam o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), com vigência a partir de 5 de junho, com base na Seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade e em uma ordem executiva de Trump.
Por que essa classificação importa
A designação como FTO não é simbólica. Ela ativa consequências jurídicas e financeiras concretas nos Estados Unidos:
- Sanções financeiras sobre qualquer pessoa ou empresa que mantenha relações comerciais com os grupos designados
- Ampliação do alcance das agências de inteligência americanas em investigações relacionadas às facções
- Criminalização do apoio material — qualquer transferência de recursos, mesmo involuntária, pode configurar crime federal nos EUA
O PCC conta com aproximadamente 42 mil membros, com presença confirmada em vários países, incluindo os próprios Estados Unidos, onde membros da facção foram identificados em cidades como Miami, Boston e regiões da Pensilvânia.
Para analistas de segurança internacional, a medida eleva as facções brasileiras de um problema policial para o campo da segurança nacional americana — mudança de escala com implicações diplomáticas ainda em aberto.
O ângulo geopolítico: mais do que uma disputa comercial
Analistas do Observatório de Política Externa (OPEU) alertam que a investigação de 2025 quebra a lógica tradicional da Seção 301. Os seis temas elencados pelo USTR não convergem em torno de um setor produtivo específico nem foram sustentados por uma petição empresarial articulada — o que aponta para uma motivação geopolítica, não puramente comercial.
A tese é que o caso brasileiro se insere no contexto mais amplo da rivalidade estrutural entre EUA e China e da reorganização das cadeias produtivas globais. O Brasil, por manter relações estratégicas com Pequim enquanto integra o grupo BRICS, tornou-se um alvo de pressão em múltiplas frentes simultaneamente.
Trump também ameaçou aplicar uma tarifa adicional de 10% a países alinhados com “políticas anti-americanas” do BRICS — reforçando a leitura de que a pressão sobre o Brasil tem componentes ideológicos e geopolíticos além dos comerciais.
A polarização política interna
No Brasil, a crise bilateral rapidamente entrou no circuito da polarização política.
Uma das contradições mais exploradas nas redes sociais foi a posição da família Bolsonaro: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com Marco Rubio em Washington justamente na semana em que a designação das facções como terroristas foi anunciada — gesto lido por críticos como alinhamento com medidas que constrangem o governo Lula, mas que também impõe custos ao Brasil.
O presidente Lula reagiu de forma direta ao anúncio do tarifaço, em declarações que rapidamente circularam nas redes. A combinação de economia, soberania e identidade política tornou o tema viralmente polarizante.
O que o Brasil pode fazer agora
Caminhos diplomáticos e comerciais
O governo brasileiro tem algumas alternativas concretas diante do cenário atual:
- Consulta pública do USTR — O Brasil pode apresentar argumentos formais antes da publicação do relatório final, previsto para 15 de julho.
- Negociação bilateral — Embora o embaixador Greer tenha reconhecido reuniões com Lula e seu gabinete, as “divergências substanciais” ainda persistem, segundo o próprio USTR.
- Recurso à OMC — Possível, mas a efetividade do mecanismo foi enfraquecida nos últimos anos pelo crescimento do protecionismo global.
- Diversificação de mercados — Em 2025, o Brasil já demonstrou resiliência nesse sentido, com exportações recordes puxadas pela China. A estratégia pode ser aprofundada.
O que os dados mostram
Apesar do discurso de Trump sobre déficit comercial com o Brasil, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que os EUA têm superávit comercial com o Brasil há 16 anos consecutivos. Em 2025, o saldo parcial era de US$ 1,6 bilhão favorável aos americanos.
O que está por vir
O calendário das próximas semanas será decisivo:
- Até 15 de julho de 2026 — Publicação do relatório final do USTR sobre a Seção 301
- 5 de junho de 2026 — Entrada em vigor da designação de PCC e CV como FTO
- Decisão final de Trump — As tarifas de 25% ainda dependem de ordem presidencial
Seja qual for o desfecho, o episódio já deixou uma marca: as relações Brasil-EUA deixaram de ser um tema restrito à diplomacia e à economia e passaram a ser, de forma permanente, combustível do debate político doméstico — com todas as distorções e amplificações que esse deslocamento implica.
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